Casuística
a
artes antiartes heterodoxias

Anterior
? Capa
A coleção de moedas – 2 de fevereiro.
Minha irmã quis passar uns dias em casa, nesse começo de ano, e eu quis preparar as coisas da maneira mais cômoda. Para isso é preciso perseverança. Pois, se me encontro sozinho em casa, a ordem e a limpeza parecem coisas sem importância e, como passei o bom período das férias nessa condição, houve muita coisa a por em ordem e a limpar, agora que terei companhia familiar. Meu descaso para com os utensílios domésticos não é consciente, mas tomou, com o tempo, várias formas conscientes. Eu o compreendi bem esse dias: Retirando-me as roupas para o banho, percebi que lhes manipulava meio abruptamente, querendo, rápido demais, me livrar desse peso: não o peso das roupas, mas o peso da perda de tempo. É como se essas atividades manuais pudessem me turvar certos movimentos internos que simultaneamente se passassem em mim e exigissem para si mesmos a exclusividade de minha consciência. O próprio banho, então, e tudo o mais, é novelos dos delírios, e muito menos um trato do corpo e desse todo mais. Recordo-me – e, aliás, essa parece ser a maneira mais precisa de enunciar esse traço de espírito – de um cachorro que tivemos na minha meninice e para quem se escolheu o nome - “Terra”. Na ocasião de sua vinda para casa, esse nome me causou uma impressão ruim, com a impressão dos sentimentalismos e certo teor positivo e bom – inaceitável para o menino que sempre amou o vilão e o que mais houvesse de mau – e a o traço da Terra, azul e em sua órbita cósmica. Apenas recentemente e por um acaso ocorreu-me pressupor então que esse nome - “Terra” - , no caso, não se reportasse ao astro, absoluto e intocável – universal – , mas à terra mineral do chão, a terra onde se enterra os mortos. Assim, se de repente me parece desnecessário mais de um minuto para escolher as roupas a lavar, recolher os ciscos sobre mesa e lavar pratos, é unicamente por estar perdido num labirinto interminável de pensamentos e de conceitos abstratos demais, com pretensões universais, interpondo-se dentro de mim, verticalmente, e que a mente pretende traçar até o fim para levantar-se, cumprindo o dever que sua pretensão recomendou, às alturas do próprio universo de Deus. A olhos alheios, isso pode aparecer com uma demência motora ou uma inaptidão incômoda para as habilidades práticas, se não aparecer como loucura; mas é preciso ver que nem “loucura” nem “demência” nomeiam bem esse estado. As geometrias, os corredores de um labirinto, pois, não são desordenados, mas apenas, à maneira das entranhas das mandalas, aprofundados e complexificados a partir da mesma ordem. Não traem, portanto, essa ordem, nem suas simetrias, nem seus perfeccionismos. Isso ocorre então sem haver um rompimento – sem haver, portanto, demência. Porém, há nisso, sim, empecilhos – pois, à parte todas essas considerações, permanece a dificuldade de se sair do labirinto. Creio, em todo caso, comparando-a com as quatro paredes que aprisionam um homem ordinário, que a infinidade de paredes de um labirinto encerra toda uma possibilidade mais criativa. Os labirintos são – verticais. Se enfim o homem ordinário desvairar, é provável que encontre uma loucura tediosa e sem motivações artísticas ou científicas, não havendo sequer um fio de meada para seguir através das paredes das idéias – A única esperança para sair do cerco de heras. Em todo caso, é uma importante esperança, para quem vai permanecer sempre ali dentro, para se construir uma vida, mesmo assim, suportável. Última coisa: os labirintos, por mais íntimos que pareçam, como a profundidade escavada dos ouvidos, podem levitar um homem e alçá-lo para o vôo – essa capacidade de causar a ascenção está combinada, por nossa semântica anatômica, ao nome “labirinto”. Assim, para um homem que está sempre imerso em si, dizemos que “anda com a cabeça nas nuvens”.
No mais, minha participação nas coisas reais se passa unicamente mediante a extrema compenetração. Mesmo que porventura se apresente a mim a inevitável necessidade de uma atividade doméstica, o caso então se resume à demanda de certos procedimentos. Em dias, por exemplo, de receber visitas em casa, posso me ocupar da limpeza e a executar sem um pesar especial, apenas mediante o exercício de cobrir as coisas domésticas – as coisas terrestres – com certa película de valor, com certa importância existencial, e preparar-me enfim para fazer a faxina e extrair desse exercício o máximo. Isso se passa com ares também de uma recomendação terapêutica para o espírito, uma incursão na experiência que visa porém ensinar a esse espírito uma coisa muito acima da experiência. É-me possível, então, viver todas as coisas mundanas. Quis dessa vez cuidar bem de minha irmã por todo tempo que estivesse aqui, e isso certamente me seria um bem, me daria um descanso para a mente. Também me preparei para viver um momento interessante, uma coisa extraordinária – entre quatro paredes.
Mas já tergiversei:
O importante: Logo veio o dia quinze e precisamos fazer o pagamento da mensalidade dessas quatro paredes. Como o valor é imenso, e como não me permitem resgatá-lo numa só operação e nem transferi-lo diretamente para o

71
Contato Lista de Email Edições anteriores Blogue da Casuística

Próxima