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O pseudo-falo feminino

Dizem que um dos resultados do movimento hippie dos anos 60 e do movimento feminista dos anos 70 foi a libertação sexual da mulher. Que o moralismo burguês tenha ficado um pouco acuado desde então, não nego. Que tenha havido liberdade, não é muito o que sinto. Se já não é mais proibido exibir as formas do próprio corpo, esse corpo próprio também não pode ser tão próprio, se se quiser mostrá-lo: ou entre no padrão loira magra alta peituda, ou fique como plano b sendo morena bunduda peituda, ou trate de esconder essas suas carnes mal distribuídas. Isso é chavão, eu sei, tão banal quando esconder a cara por trás de maquiagem.
O ponto que eu queria abordar era outro. O movimento de direito dos animais reclama do aumento artificial dos úberes das pobres vacas, com vistas a produzir mais leite e mais dinheiro; o mesmo pode ser dito dos úberes de nossas ricas mulheres, expandidas a tamanhos bizonhos com vistas a produzir mais leite (não necessariamente via úberes) e mais dinheiro.
Seios grandes era algo já desejado desde a Grécia Antiga, bem sei, e isso talvez seja uma reforço ao meu argumento. Na Grécia Antiga a mulher era um utensílio doméstico, como um escravo ou um bom cachorro. Ou seja, melhor tentar defender a expansão das mamas por outro viés. Aumento da feminilidade é outro argumento. Ótimo, como se mulher se resumisse aos seios e à fenda que traz no meio das pernas. Mas o pior deste argumento é não notar que o que tem acontecido é justamente o contrário.
Me explico.
O que tem se presenciado desde os anos 60 não é a libertação da sexualidade da mulher, mas a libertação da mulher assumir o mundo masculino. Começou com o sair para trabalhar, passou por certa igualização das vestes, seguiu com o questionamento da inferioridade feminina (que em alguns aspectos é verdade e evidente, só feminista não vê. E antes que me acusem, aviso que não compartilho das opiniões de Lawrence Summers). Em todos esses casos, foi sempre um reforço social do masculino (força, agressividade, expansão) em detrimento do feminino (delicadeza, introversão, jeito), é a mulher ocupando lugares masculinos, e nunca o homem ocupando lugares femininos. Ah, mas alguns homens ajudam nas tarefas domésticas. Certo, mas exceções só servem para confirmar a regra - e como não estamos falando de física, a regra não é válida em 100% dos casos. E também é muito raro alguém dizer, ah, mas algumas mulheres ajudam no orçamento doméstico; ou ser comum homem usar saia, como é mulher usar jeans. Nos filmes fica muito evidente o feminino como inferior. E não falo aqui dos filmes pornôs, mas de filmes família, como Madagascar 2 ou Marley e eu.
À minha tese, enfim.
Sendo nossa sociedade (entenda aqui a sociedade ocidental) uma sociedade tradicionalista, atrasada e moralista - que insiste em dividir gêneros em sexos, macho e fêmea -, com culto ao macho, que uma vez misturado ao conceito de cidadania e igualdade universal, deu abertura para que as mulheres participassem desse mundo, estas se sentiram inferiorizada por não terem justo o que caracteriza o homem: o falo. Contudo, se implantassem um pinto no meio das pernas deixariam de ser mulher. O que foi encontrado para substituir o falo sem deixar de ser mulher? Aumentar a protuberância típica da mulher, os seios. Seios grandes são o sonho da mulher moderna, como um pênis grande é o sonho do homem moderno (o contrário da Grécia Antiga, diga-se de passagem). São sinônimo de poder, de caráter, nesta sociedade onde é preciso ter culhões.
Mas pode-se objetar: nem todas as mulheres que implantaram silicone são "mulher-macho", muitas continuam sendo a mesma mulher submissa ao homem. Isso é verdade, e vejo dois aspectos. Primeiro, que não raro tal mulher é submissa não a qualquer homem, mas àqueles que incorporam de maneira muito bronca o macho, o playboy pitboy de academia como tipo ideal. Ou seja, tem seu poder (masculino) aumentado pela companhia do macho que garante todo o terreno. Segundo, porque se a divisão sexual do trabalho está menos rígida no mercado, ela permanece tradicional em casa. Na praia, na balada, ela até ganha uma dose de poder, impõe respeito, vê o macho por um tempo subjugado. Porém quando chega na cama, seu substituto para o falo não é o falo, e nesta sociedade de culto ao falo, não lhe resta outra alternativa que ajoelhar a quem realmente manda.
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